quinta-feira, 21 de julho de 2011

Cacau: trabalho, suor e vida.

Estranho destino, o do cacau. O preço de tudo o que se produz a partir do cacau não pára de subir, o preço do cacau não pára de cair. O cacau é mais um daqueles tantos produtos cujo preço é determinado por quem jamais produziu e jamais irá produzir um só grão do fruto.

Muitas das árvores do cacau estão produzindo há mais de cem anos. São frondosas, generosas, com formas antigas como se viessem de trás dos tempos. Árvores fantasmagóricas, com estranhos desenhos, caprichos inesperados. E no entanto, delicadas: as árvores do cacau são protegidas por outras árvores enormes, árvores de frutas, porque o do cacau exige sombra e umidade, não pode enfrentar o sol, porque traz o sol em seu fruto.

Ali, debaixo da sombra, asfixiados pelo calor e pela umidade, trabalham os homens e mulheres no cacau. As árvores que protegem a planta do cacau também protegem o povo do cacau: é tão pouco o que ganha um trabalhador, que as frutas que caem das sombras protetoras ajudam em sua alimentação. E o próprio cacau mantém seus trabalhadores: o fruto aberto escorre um leite de energia, puro e doce.

As mulheres do cacau usam botinas altas, porque há muitas cobras entre as árvores. E usam panos enrolados na cabeça, quase turbantes, para se proteger dos frutos do cacau, que, cortados, despencam lá do alto.

Faz-se muito amor nas plantações de cacau. Há muitas crianças vagando naquele calor sensual e que são filhas do calor do cacau.

É festeira, a gente do cacau. No turbilhão do calor, da umidade e da sombra, a festa é íntima.

Nada é pecado no cacau: tudo é energia e vida. Um vigar que resplandece nos corpos que se buscam, furtivos e eternos, entre a umidade das árvores.

Quem põe preço nessa liberdade? Quem é escravo dessa alegria?

( Salgado, sebastião Trabalhadores: uma arqueologia da era industrial/ Sebastião Salgado - São Paulo: companhia das letras, 1996 - p: 10 - 11)

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